História de Vila Meã




Vila Meã - Portugal

A realidade e as tradições

Vila Meã é uma localidade pertencente à província do Douro Litoral, integrada no concelho de Amarante e situada, sensivelmente a meio, entre esta cidade e a de Penafiel.

Tem como coordenadas de localização:
Latitude Norte - 41º 25'
Longitude Oeste (do Meridiano de Greenwich) - 8º 18'
Altitude média: 175 m.
A temperatura média anual ronda os 15 graus centígrados.

É servida pelo caminho-de-ferro da linha do Douro.

Esta linha ferroviária, cuja construção se iniciou em 8 de Julho de 1873, foi construída por fases, a primeira das quais entre Ermesinde e Penafiel, foi inaugurada a 29 de Julho de 1875. Passados cerca de cinco meses, a 20 de Dezembro, a Linha do Douro chegava a Caíde de Rei. Mas aqui a linha parou durante três anos. A construção de um túnel entre Caíde e Vila Meã e outro entre o Marco de Canaveses e o Juncal, cada um com mais de um kilómetro, fizeram com que só a 15 de Setembro de 1878 chegasse o primeiro comboio a Vila Meã, ao ser inaugurado o troço Caíde de Rei / Juncal.

Esta obra foi de um benefício enorme para Vila Meã (que havia recentemente perdido a sua organização municipal). Agora que as diligências iam perder a importância, devido à comodidade e rapidez que o comboio veio oferecer, a localidade necessitava de algo que a revitalizasse, para reconstituir a importância económica que ostentava quando centro de um

concelho que ocupava o sexto lugar no panorama económico do distrito do Porto.
Aqui pesou a importância do Visconde de Santa Cruz.
A linha estava projectada para sair do túnel de Caíde de Rei e encostar para sul, não percorrendo quilometragem necessária para dar a Vila Meã uma estação. Mas o Visconde consegui convencer a engenharia da época a devia-la por Oliveira, construir uma ponte de ferro, completando os kilómetros que faltavam. E quando em 1907 inaugurou a sua Casa de Santa Cruz, veio do Porto, com a família, em comboio especial que parou mesmo em frente à sua casa, apeando-se todos por uma improvisada escada de madeira.
Esta estratégia permitiu a Vila Meã estabelecer, à volta da sua estação, um pólo comercial e industrial de interesse económico acentuado, que durante mais de um século ajudou a suprir a falta de investimento público por estas paragens.


Vila Meã sempre teve boas ligações aos centros de desenvolvimento. Mesmo antes do comboio e das carreiras de autocarros, já recebia os benefícios da Estrada Pombalina, que rasgava a vila pelo meio, trazendo por aqui os viajantes que de Vila Real demandavam o Porto e deixando o correio para as freguesias de Ataíde, Mancelos, Oliveira, Real e Travanca. O correio de Mancelos e Pidre ficava nos estabelecimentos destes lugares, que também beneficiavam da passagem da diligência.

Ainda hoje se vê a casa onde, nesse tempo, funcionavam os correios, mesmo à esquerda de quem observa de frente a Casa de Santa Cruz.
Aliás, a beirada do telhado da actual estação dos correios está influenciada pela do telhado da estação antiga.
Actualmente é atravessada por carreiras diárias para o Porto e Amarante, estando também servida pelas auto-estradas A 4 (Porto - Amarante) e A 11 (Esposende - A 4) no nó de Recesinhos.
Quem se dirige a Vila Meã e transita na A4 deve utilizar a saída para Felgueiras e Marco de Canaveses. Se transita na A11 com as mesmas intenções, deve utilizar a saída para Vila Meã, ou, se preferir, na saída de Caíde de Rei e, na rotunda imediata, virar para Penafiel e a seguir para Vila Meã.
Durante a ocupação romana foi ponto de passagem da via que ligava Braga a Viseu, aproveitando todo o curso do rio Odres, para reabastecimento de água, e tratamentos balneares.
Era utilizada, em longo curso, especialmente pelos Romanos, em viagem entre as duas milenares cidades, quando necessitavam de deslocar os seus exércitos.


Breve história

Do século IV ficou aqui uma necrópole à margem da via romana e, juntamente a ela, muitos objectos de olaria e outros utensílios e moedas da época dos imperadores Cláudio II e Constantino.
A origem desta vila deverá estar ligada a uma "villa" agrária primitiva, provavelmente da época romana, tese que se defende com a datação das moedas encontradas em 1955, nos alicerces abertos para edificação do actual Bairro Brasil, onde se situava a necrópole.

Até 24 de Outubro de 1855, foi sede do concelho de Santa Cruz de Riba Tâmega, já citado nas inquirições de 1220 ordenadas por D. Afonso II, como tendo o seu julgado em "Villae Mediane, in ecclésie Sancti Salvatoris ", em Real, freguesia a que pertencia o lugar de Vila Meã, que deu o nome à vila.
Não se conhece a data em que lhe foi concedido o primeiro foral, mas, a 1 de Setembro de 1513, o rei D. Manuel I fez várias confirmações de forais e, entre eles, foi também confirmado o de Santa Cruz de Riba Tâmega.
No século XIX e durante a segunda invasão francesa, foi vandalizada pelos soldados de Soult, na sua fuga às tropas anglo-lusas superiormente comandadas pelo general Wellesley, tendo sido queimadas todas as casas que bordejavam a via pombalina que do Porto se dirigia para Vila Real, com passagem por Amarante.

Com base na localização do julgado, atrás citada, é de crer que este funcionasse na antiga igreja de Real, substituída em 1938 por outra mais moderna e mais centralizada na freguesia.
Aliás, naquela época não era muito raro que as assembleias locais funcionassem nas igrejas e, a prová-lo está uma acta da câmara do Porto, onde se lê: … "reunida nos claustros da igreja de S. Francisco" …


Nos princípios do século XVII foram construídos os Paços do Concelho que, juntamente com o pelourinho que se ergue na sua frente, são ainda o símbolo da organização municipal ali sediada.

Mas, após a extinção do concelho, a Câmara de Amarante, na qualidade de nova proprietária daquela relíquia Vilameanense, apressou-se a transformá-la em dinheiro, vendendo-a a particulares, assim se mantendo por mais de um século.


Em 1 de Dezembro de 1644 foi lavrada no cartório de Santa Cruz de Riba Tâmega, em Vila Meã, a escritura que instituiu o Morgadio da Casa do Carvalho e nomeou o seu primeiro administrador. Deste morgadio tinham saído alguns nomes que serviram o reino, como D. Leonor Teles, que foi rainha de Portugal, e outras figuras de capitães e conselheiros, o último dos quais serviu na côrte de D. Carlos.


Zé do Telhado

Durante o movimento popular denominado "Maria da Fonte", que eclodiu em terras da Póvoa de Lanhoso, o concelho de Santa Cruz de Riba Tâmega alinhou ao lado das tropas do Visconde de Sá da Bandeira, contra as de Costa Cabral, uma luta que também ficou conhecida como Guerra da Patuleia. Aqui se destacou a força e coragem daquele que havia de vir a ser o mais célebre salteador do Norte de Portugal - José do Telhado.



Em Real e muito próximo da igreja desta freguesia, situa-se o Alto das Cruzes, local directamente ligado à iniciação desse assaltante de casas ricas, que se auto intitulava de distribuidor público, pelo facto de reservar uma parte dos seus assaltos para distribuir pelas famílias pobres desta região.


Indústrias extintas
Nos finais do século XIX e princípios do século XX, floriu em Vila Meã a indústria de mortalhas para cigarros, utilizando como matéria-prima o folhelho da palha de milho.
Ficaram ainda as indústrias de fabrico de ferraduras e canelos, que também soçobraram alguns anos mais tarde. Ferraduras e canelos eram capas de ferro de protecção às patas dos animais, aquelas para o gado asinino e estes para o gado bovino.
Mas nem só de ferraduras e canelos viviam os ferreiros de Vila Meã.
Pode dizer-se que em todas as freguesias havia várias oficinas de ferreiro, de onde saiam todos os trabalhos que se exdecutavam em ferro. Eram os talheres de cozinha, as ferramentas para os lavradores, para os carpinteiros, pedreiros e, praticamente, todas as profissões que por aí abundavam.
Entretanto, os estabelecimentos de ferragens também recebiam dos ferreiros vários utensílios para venda à construção civil, onde se incluíam as dobradiças, os chumbadouros, as fechaduras e respectivas chaves, etc., etc..
Mesmo na segunda metade do século XX, ainda se manteve em actividade a Fundição de Vila Meã, importante estabelecimento económico que albergava algumas dezenas de postos de trabalho e facturava verbas de grande importância, considerada à época, juntamente com as serrações de madeira, um pólo de desenvolvimento importante para o desenvolvimento económico e social de Vila Meã.

Também em Travanca, mais propriamente no lugar de Padrão, funcionou uma fábrica de colas, que veio a cessar a actividade por velhice do empresário (o senhor Ramada), que não tinha herdeiros directos e o filho adoptivo abandonou o continente para ir desenvolver um actividade em Angola, fugindo, assim, a problemas de ordem conjugal e jamais regressando à matróplole.
A última machadada na indústria Vilameanense foi desferida pelos chineses ao destruírem as "Malhas e confecções". Vila Meã foi um centro importante de produção de confecções, para onde confluía a mão-de-obra dos concelhos vizinhos, quer em trabalho industrializado, quer no trabalho à peça executado na casa dos executantes.
A invasão do comércio de lanifícios por artigos vindos do oriente derrubou a quase totalidade das empresas que, nesta localidade, processavam o fabrico de roupas.


Mutações do comércio
Vila Meã não vivia só em função das indústrias. A sua estação de Caminhos de Ferro proporcionava-lhe oportunidades que os Vilameanenses não ignoraram e aproveitaram para estabelecer os seus negócios.
Só armazéns de mercearia eram três e dois armazéns de azeite, aqueles para abastecimento não só dos retalhistas de Vila Meã, como os das redondezas, estendendo-se ao Marão e aos vizinhos concelhos do Marco e Baião, e estes tanto vendiam para o comércio local como vendiam para o estrangeiro, sendo a América do Sul o destino de uma boa parte desse magnífico líquido.
Ultimamente e por influência chinesa (como atrás se disse), desapareceram também a maioria dos comerciantes que corriam o norte do país, colocando em diversos estabelecimentos os produtos manufacturados em Vila Meã.

Restauração e alojamento
Já em tempos recuados, Vila Meã tinha um lugar nos serviços de restauração e alojamento.
A passagem da Estrada Pombalina, que do Porto se dirigia para Vila Real e Régua, criava necessidades de restauração e hospedaria aos viajantes que utilizavam as diligências, os quais contavam com duas Estalagens, ambas no lugar de Salgueiros, em Real, que dispunham também de cavalariças para descanso e abrigo das bestas.
Depois da inauguração da estação ferrroviária da Linha do Douro outras oportunidades surgiram e o centro dos viandantes deslocou-se para junto do comboio.


Vila Meã hoje
Vila Meã é vila desde 1 de Fevereiro de 1988. A área urbana distribui-se pelas freguesias de Ataíde, Oliveira e Real, intimamente ligadas às de Mancelos e Travanca (com as quais confinam) pelo caminho-de-ferro, pelos correios, pelo Centrode Saúde, elas instituições financeiras, pela feira quinzenal e outros serviços aqui sediados.

Equipamentos
Nestas cinco freguesias, que a estação dos correios de Vila Meã congrega, a população residente ronda os 12.000 habitantes. A par da estação ferroviária, a estação dos correios foioutro baluarte da resistência de Vila Meã aos seus usurpadores.
Instalada na via Porto-Amarante (a cerca de 100 metros da actual) durante o período em que o correio era distribuído pelas diligências, veio a ser transferida para um prédio em frente da estação ferroviária, para, em meados do século XX, sido instalada num edifício de raiz, onde se encontra actualmente.



As novas instalações do Centro de Saúde, inauguradas em Janeiro de 2007 pelo ministro Correia de Campos, oferecem óptimas condições de comodidade aos cerca de 15.000 utentes que as frequentam.
O Centro de Saúde foi construído no mesmo local onde funcionou o Cartório Notarial, assim como a primeira padaria que em Vila Meã se instalou.

O novo quartel dos Bombeiros Voluntários de Vila Meã, construído com capitais próprios e a valiosa colaboração da Câmara Municipal, é mais um equipamento valorizador do património social edificado desta vila.
Pena foi que a sua implantação não tivesse sido orientada para uma zona mais centralizada em relação à área que está adstrita à corporação, pecando por ficar quase num extremo dessa mesma área.

Do complexo desportivo, edificado pela Câmara Municipal, fazem parte as piscinas, com condições para a realização de provas oficiais. Foram inauguradas m Novembro de 2007, pelo Secretário de Estado do Desporto e da Juventude, Laurentino Dias, sendo consideradas como o maior benefício para o povo de Vila Meã, tanto mais e desenvolvem actividades de interesse para a saúde dos cidadãos, como, por exemplo, a hidroginástica.


Integrado no mesmo complexo, foi construído um novo estádio de futebol, com campo de jogos e campo de treinos.
A necessidade de um equipamento deste género era gritante, já que o velho Campo de Santa Cruz era de dimensões muito reduzidas, não podendo nele disputar jogos do Campeonato Nacional, ou da Taça de Portugal, agora que a equipa local - o Atlético Clube de Vila Meã - está envolvido nessa provas de carácter nacional.
Projectado está também, para os terrenos circundantes do estádio, um pavilhão gimnodesportivo que será construído pela mesma entidade.

O Centro Cívico Raimundo Magalhães, construído em 1957, foi obra da Comissão de Melhoramentos de Vila Meã, associação formada para proporcionar a esta vila alguns melhoramentos que a Câmara de Amarante teimava em negar, não obstante a importância económica e contributiva que esta região proporcionava a Amarante.
Tem lugar para cerca de 500 pessoas sentadas e por aqui já passaram espectáculos de grande classe, apresentados pelas melhores companhias portuguesas e algumas espanholas.

Recuperados para a administração pública pelo actual presidente daquela Câmara, Armindo Abreu, os velhos paços do concelho foram restaurados e, sem adulterar o seu traço arquitectónico, convertidos em Biblioteca Municipal, dispondo de uma sala de conferências que tem acolhido algumas comunicações de grande interesse, tanto para o grande público, como para algumas actividades com aplicação local.

No âmbito do apoio financeiro à economia, a vila dispõe ainda de 3 dependências bancárias e, para garantir a segurança popular, está dotada de um Posto da GNR.

Numa casa bem próxima do pelourinho, nasceu a ilustre escritora portuguesa Agustina Bessa Luís, tendo sido baptizada na igreja de Travanca e ali vivendo até aos dois anos, altura em que, para acompanhar os pais, foi morar para o Porto, onde fixou residência.
Galardoada mais de uma dúzia de vezes com prémios nacionais, entre os quais se conta o Prémio Camões, o mais elevado prémio da literatura portuguesa, junta-lhes ainda o Prémio "Adelaide Ristori", atribuído pelo Centro Cultural Italiano de Roma em 1975 e o Prémio União Latina (Itália), em 1997, este com "Um Cão que Sonha".
Do seu acervo literário constam obras de ficção, biografia, ensaísmo, crónica, viagens, teatro e conto juvenil.
Autora de "A Sibila", "Os Incuráveis", "A Bíblia dos Pobres", "O Mosteiro" "A Muralha", "O Sermão do Fogo", "Um cão que sonha", entre muitos mais, é, sem dúvida, um marco histórico na nossa literatura.

A cerca de 3 kilómetros do local deste festival, no lugar de Manhufe, nasceu nesta casa, a 14 de Novembro de 1887, o grande pintor impressionista, expressionista, cubista e futurista do início do século passado - Amadeo de Souza-Cardoso.
Depois de produzir uma obra notável, veio a morrer em 25 de Outubro de 1918, vítima da pneumonia, ou gripe espanhola.

Neste ambiente de sonho da Casa das Figueiras, em Travanca, viveu e trabalhou Acácio Lino - pintor e escultor impressionista, cujos frescos embelezam algumas salas da Assembleia da República.
Mas nem só as salas da Assembleia da República ostentam obras do artista. Os maravilhosos jardins da Casa das Figueiras revelam, a cada canto, a mão artística do Mestre.
Recentemente e por iniciativa do sobrinho-neto Rui Brochado, foi inaugurada a Casa - Museu do mestre Acácio Lino, onde os amantes das artes podem pintar, desfrutando do mesmo ambiente em que o artista produziu a sua obra.

Durante a guerra mundial de 1914 a 1918, eclodiu a "Pneumonia", tipo de gripe mortal que ceifou muitos milhões de pessoas em todo o mundo.
O contágio era quase inevitável, mas a enfermeira Ana Guedes da Costa transformou a sua casa particular num hospital e conseguiu evitar muitas mortes. Vila Meã deve-lhe um gesto de agradecimento.
Legitima descendente do Conde da Costa, D. Ana José Guedes da Costa nasceu em Luanda a 14 de Dezembro de 1860 e morreu no Porto a 11 de Outubro de 1947.
A Cruz Vermelha reconheceu o seu trabalho com a Placa de Honra pelos serviços que prestou no hospital daquela instituição - o tratamento do tifo e de doentes com pneumónica.
Foi vereadora da Câmara do Porto e em 1944, foi proclamada Cidadã Honorária por esta Câmara.
Foi também a primeira Senhora da Alta Sociedade do Porto diplomada oficialmente como Enfermeira. Foi dado o seu nome à Escola Superior de Enfermagem desta cidade.


Tradições populares

O povo de Vila Meã sempre foi muito trabalhador e alegre, mas, ao mesmo tempo, muito devoto. Dessa alegria e dessa devoção nasceram hábitos que se prolongaram nos séculos.
As tradições mais antigas ligadas à fé, que ainda se mantêm, são os "Clamores" que se repetem anualmente em datas certas.
O primeiro é o de S. Brás que se realiza a 3 de Fevereiro, culminado a romaria iniciada no dia anterior, de que falaremos mais adiante.
Consistia em rezar as ladainhas durante sete voltas à capela, com os populares a repetir as citações do padre.
Depois vinha o de Santo António, a 13 de Junho, que saindo da Igreja Velha de Real se dirigia à capela daquele santo, na Casa do Carvalho.
Era uma casa de fidalgos com bastante poder económico, que tinha instituído para esse dia uma feira de gado (Santo António é o padroeiro dos animais), com prémios para as melhores cabeças de gado e também para a "chamadeira de bois" que fosse bonita e se apresentasse bem vestida. No alto da escadaria da casa improvisava-se um altar para o santo venerado (como se vê na foto), de onde ele distribuía as bênçãos.
Com a perda de influência dos donos da casa, a feira foi extinta e o clamor, que ainda se manteve por muito tempo, acabou também por tomar o mesmo caminho.
Por fim o clamor de Todos os Santos, que tem lugar a 1 de Novembro. Sai da capela de S. Roque, na Rua Dr. Joaquim Silva Cunha e dirige-se para o cemitério local, recentemente aumentado pela passagem na igreja.
Nos tempos passados, este clamor, após a sua chegada ao cemitério, completava as rezas comuns na praça central, após o que o padre percorria as campas, para que fosse chamado pelos devotos, rezando individualmente pelos que ali jazem, a troco de uma recompensa monetária. Ainda me recordo de cada "Padre-Nosso" custar 1$00.
Este costume acabou, sendo substituído por uma procissão que percorre todos os arruamentos do cemitério, sem cobrança de qualquer verba.

Romarias
Em Vila Meã há, actualmente, duas romarias.
A primeira tem lugar a 20 de Janeiro, coincidindo com a abertura do período de Carnaval, o que, a juntar ao facto de o vinho estar na sua maior força, dava a origem a duras cenas de pancadaria.
O palco é o largo que se estende em frente da capela de S. Sebastião, em Travanca, sendo de admitir que tenha sido implantada pelos frades e abades do Mosteiro de Travanca que, detendo a posse do couto a ele agregado, constituía uma entidade muito influente na freguesia e arredores.
A 2 de Fevereiro realiza-se a romaria do venerável S. Brás, que ainda nos dias de hoje, mesmo que não aconteça em fim-de-semana, junta muitos devotos que vêm aqui depor as suas ofertas ao santo que foi eleito "advogado da garganta".
Estão vivas aí as tradições e jogos característicos do Carnaval.
Esta capela é propriedade particular de um descendente dos Mendes de Vasconcelos, Alexandre Vasconcelos, que mantém a tradição de fazer estoirar fogo de artifício, no dia 2 à noite, e de mandar rezar missa na capela no dia seguinte.
Na freguesia de Mancelos ainda perduram as Endoenças, cerimónias da semana santa.
A transformação das condições e do ritmo de vida do povo, ditou que estes festividades sofressem grandes alterações, diluindo a romaria que tinha lugar na Quinta-feira. A própria "Carreirinha do Senhor", que se realizava na Quarta-feira à noite, passou para o Domingo anterior, perdendo a magia das pinhas acesas, com que se "alumiava" o caminho, mas mantendo a vasta participação popular, que aprecia os cânticos da "Verónica", nas várias paragens do préstito.
Á chegada da procissão ao adro do mosteiro provoca aos crentes um momento extasiante - o encontro da Mãe com o Filho. Êxtase

A vida monástica
As freguesias de Mancelos e Travanca, também elas abrangidas pela área de serviços de Vila Meã, encerram valiosos testemunhos de antiguidade através dos seus edifícios medievais.
O convento de Travanca teve inclusivamente uma forte influência na esfera administrativa e judicial, embora sempre dependente da sede do antigo concelho de Santa Cruz de Ribatâmega na área do criminal.
O abade de Real era da apresentação deste convento e o reguengo desta freguesia tinha por obrigação de dar um jantar a todo o convento, não só aos religiosos como também aos escrivães. E como este se deslocavam a cavalo, acrescia meio alqueire de cevada para refeição de cada cavalgadura.
Foi construído por fases, a primeira das quais se atribui a um tal D. Garcia Munis ( O Gasco), por volta do ano de 1008. A igreja foi edificada por D. Gastão Munis que se supõe ser neto daquele D. Garcia. Recebeu também, mais tarde, algumas beneficiações levadas a efeito por um Egas Moniz (que não o do castelo de Guimarães) e completado na sua versão actual já no século XIII.
Foi reconstruído em 1678, sendo, ao tempo, geral da congregação o padre mestre Frei Hyerónimo de Santiago.
Embora se considerasse propriedade real, o mosteiro de Mancelos, foi fundado por Mem Gonçalvez da Fonsequa, 23 anos antes de D. Afonso Henriques ser elevado à dignidade de Rei de Portugal.
E porque era propriedade da realeza, ninguém ali se podia enterrar sem licença do rei, nem mesmo os religiosos e os vigários.
Tanto assim que em 1652 morreu um vigário, de nome Gonçallo Teixeira, que tinha comprado ali sepultura por mil réis (uma fortuna na altura) e teve de ser enterrado do arco para baixo.
Por muito tempo administrado pelos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, foi doado por D. João III aos Frades Dominicanos de S. Gonçalo de Amarante, em 1540.
A razão desta mudança de mando justificou-a o rei com a obrigação de os Dominicanos "formarem frades para a Índia, Brasil e outras conquistas deste Reino".
Como atrás se disse, decorriam aqui as Endoenças, cerimónias da Semana Santa.

Tanto assim que em 1652 morreu um vigário, de nome Gonçallo Teixeira, que tinha comprado ali sepultura por mil réis (uma fortuna na altura) e teve de ser enterrado do arco para baixo.
Por muito tempo administrado pelos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, foi doado por D. João III aos Frades Dominicanos de S. Gonçalo de Amarante, em 1540.
A razão desta mudança de mando justificou-a o rei com a obrigação de os Dominicanos "formarem frades para a Índia, Brasil e outras conquistas deste Reino".
Como atrás se disse, decorriam aqui as Endoenças, cerimónias da Semana Santa.


A vida no campo
Mais ou menos até meados do século vinte, o trabalho do campo era uma das riquezas de Vila Meã. Eram várias as quintas abastadas que se espalhavam pelas cinco freguesias, onde era uso e costume executarem-se trabalhos que envolviam muitos activos. São exemplo disso as sachadas do milho, as cegadas do centeio, as desfolhadas e as vindimas, a que se juntavam os trabalhos do linho, normalmente executados à noite, especialmente as "ripas" e os serões de espadela.

Os nossos antepassados não dispunham dos meios de diversão de que hoje dispomos com fartura: não havia televisão, rádios eram muito raros nos meios rurais; futebol e discotecas eram coisas impensáveis por meados do século XIX.
Mas o nosso povo sempre soube aproveitar tudo o que fosse ajuntamento popular, para, no fim das obrigações, retemperar o esforço dispendido, mesmo através de novo esforço, mas agora sob o ditado que diz "quem corre por gosto não cansa". E no fim dos trabalhos era "obrigatório" organizar-se uma dança, fosse ao toque da harmónica de foles, de uma viola, um cavaquinho ou de uma harmónica de boca.

Clássicas: Chula, Malhão
Trabalhos do campo: Cana verde trespassada, Cana verde de roda, Verdegar, Regadinho, Verde Gaio
Fim de trabalhos do campo: Rato, Ferreiro, Vira da Ana, Vareira
Romaria: Senhor da pedra, Rusga, Ramaldeira de Santa Cruz
Serões do linho: Colunas, Vira do linho, Dobadoira
Domingueiras: Pezinho, Carolina, Vai-te embora vai sozinho, Entram as damas ao meio, Oh prima... oh rica prima, Grandes festas, Zé que fumas, S. João, O Avental da Marquinhas, Subi ao alto, Cereijinha.
Escola: Charrasquinha, Padre Penetra, Carricinha
Sem classificação: Velho, Padricato (Padre icário ? ), Vira de Cruz, Ai quem me dera, Morgadinha

Daqui nasceram a maioria das danças que hoje o nosso folclore exibe, como sejam o Malhão, a Cana verde trespassada, as Colunas (linho), o Verde Gaio, o Verdegar, a Cana Verde de Roda, Regadinho, Pezinho, Dobadoira.

Das reuniões geradas pela juventude aos Domingos, quer no adro da igreja, na eira, ou em qualquer largo que se prestasse à dança ficaram O velho, Oh prima .... oh rica prima, S. João, a Carolina, o Vira da Ana, Vai-te embora vai sozinho, Vareira, Padricato.

As romarias de longe trouxeram também algum contributo, com o Senhor da Pedra, Ramaldeira, Vira de Cruz, Rusga.

A Chula de Santa Cruz
Esta é a única dança que não vem do meio popular. Na verdade, trata-se de uma dança de salão que, nos tempos mais recuados, tinha lugar exclusivamente nos salões da fidalguia, quando as novas fidalgas atingiram a idade do namoro.
Nesta altura era necessário "mostrá-las" aos filhos de outros fidalgos, no intuito de as casar com o melhor dote possível.
Era a única ocasião em que os dançantes se podiam agarrar, pois até aí, todos dançavam de braços no ar.
Com o andar dos tempos, os "criados de dentro" (os que serviam nas salas) foram decorando as suas marcações e acabaram por trazê-las para o terreiro, quando a noção do decoro desceu em exigência e os pares puderam passar a dançar agarrados.

Destes trabalhos e folguedos restam-nos os testemunhos de muitas pessoas já falecidas e algumas (poucas) ainda vivas. Testemunhos vastos ainda na segunda metade do século XX, altura em que os estudiosos do folclore de Vila Meã começaram o seu registo, por volta de 1960, no intuito de formarem uma instituição que preservasse as memórias dos então idosos.


O Alto da Cruzes - que significado?
O Alto das Cruzes, em Real, tem sido, no decorrer dos anos, objecto da curiosidade de toda (ou quase toda) a população que o observa, intrigada com o significado daquele conjunto de cruzes que o encima.

Rareiam hoje os testemunhos que sirvam de assento a uma descrição clara, do porquê da existência daquele conjunto de cruzes, num pequeno outeiro que, mais metro menos metro, medeia a distância entre os Paços do Concelho (e a Capela do Menino Deus) e a então Igreja de Real (hoje Igreja Velha).
Recuando no tempo e no espaço é possível perceber o mistério que o envolve e, mesmo assim, com a fiabilidade que se pode creditar ao trânsito dos relatos populares, que vão correndo de boca em boca, até chegarem aos nossos dias.
Realmente, o significado do Alto das Cruzes não se confina à área do cabeço onde se observam as quatro cruzes, que já foram cinco, mas que de uma delas só resta a base.
No final da primeira metade do Século XX havia quem dissesse que lá no alto era o Calvário, porque era lá que acabava a procissão e as rezas. Era a Via-Sacra. E depois de acabadas as cerimónias deixavam lá velas acesas, que seguravam com montinhos de terra. Os menos abastados em réis (era a moeda da monarquia) acendiam pinhas e colocavam-nas juntas com as velas, com a mesma devoção.


A referência mais recente
No segundo terço do século XX, o Alto das Cruzes ainda não tinha perdido totalmente a sua função religiosa. Ainda há pessoas vivas (uma delas nascida em 1907 - portanto com 102 anos - e outra nascida em 1935) com memória de se realizar anualmente uma procissão, no Dia Santo de 19 de Março (dia de S. José), que saía da igreja nova da freguesia, abandonava o adro por um portal que existia no monte da Casa da Lama e dirigia-se para junto das cruzes.
O monte da Casa da Lama tinha por vezes o mato alto, dificultado a passagem da procissão. Mas os caseiros da quinta tinham o cuidado de, na semana da procissão, cortar o mato desde o portal às cruzes, com a largura suficiente para que a procissão se realizasse sem que os devotos sofressem os incómodos derivados da aspereza daquele arbusto.
A procissão ia entoando as ladainhas e, se não nos falha a memória, rezava-se o terço junto às cruzes, para além do que o pároco da freguesia fazia um pequeno sermão, ou homilia relacionado com a festividade do dia.

*****Fim*****


Texto e imagens cedidas gentilmente pelo senhor Torcato Bessa

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