Armindo Abreu entrega, a 21 de setembro, os Prémios Amadeo de Souza-Cardoso

Armindo Abreu, Presidente da Câmara Municipal de Amarante, entrega, no próximo sábado, 21 de setembro, em sessão solene que decorrerá no salão nobre do edifício dos Paços do Concelho a partir das 16:00, os Prémios Amadeo de Souza-Cardoso.

 

Avelino Sá é o premiado da 9ª edição deste prémio bienal, pela sua obra “Japão #3” (da série Japão), e porncáustica s/ madeira, tendo o Grande Prémio Amadeo consagrado a artista Paula Rego. As escolhas reuniram a unanimidade do Júri, que é constituído por António Cardoso, Diretor do Museu Amadeo de Souza-Cardodo e comissário do Prémio; Laura Castro, Lúcia Almeida Matos, João Pinharanda e Rui Mário Gonçalves, elementos ligados à secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos de Arte (A.I.C.A.) e à História da Arte.

 

O Prémio de Aquisição, do Grupo dos Amigos da Biblioteca_Museu de Amarante, atribuido este ano pela primeira vez, recaiu na obra “Neighborhood #6”, acrílico e colagem s/ tela, de Ana Pais Oliveira.

 

À edição 2013 do Prémio Amadeo de Souza-Cardoso, que se realizará entre 21 de Setembro e 7 de Dezembro, concorreram 257 artistas, com 451 obras, tendo sido selecionados 35 artistas, com 49 trabalhos.

 

Avelino Sá sucede a Pedro Tudela, vencedor da edição 2011. Outros vencedores do Prémio Amadeo de Souza-Cardoso foram Ana Luísa Ribeiro (2009); Susanne Themlitz (2007); Ana Maria (2005); Ana Vidigal (2003); Rita Carreiro (2001); Inez Winjnhorst Assis e Santos (1999) e Albuquerque Mendes (1997).

 

Paula Rego é artista consagrada

Paula Rego passará a figurar na galeria dos artistas consagrados por esta iniciativa bienal de arte promovida pela Câmara Municipal de Amarante, onde já constam os nomes de Fernando Lanhas (1997), Fernando Azevedo (1999), Costa Pinheiro (2001), Júlio Pomar (2003), Nikias Skapinakis (2005), Ângelo de Sousa (2007), João Vieira (2009) e António Sena (2011).

Tratando-se de um prémio não pecuniário, a artista é convidada a realizar uma exposição de obras suas em espaço nobilitador do Museu, com catálogo apropriado, pressupondo-se, no entanto, a possibilidade de aquisição de uma ou mais obras da pintora para as coleções do Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso.

João Pinharanha é o Comissário da exposição de Paula Rego, de título “Devolver o Olhar”, que até 7 de dezembro poderá ser visitada em Amarante.

 

Sobre a exposição, escreveu o texto que se segue.

 

Devolver o olhar

Esta mostra compõe-se de inéditos e de recorrências. Apresenta obra consolidada e estudada de Paula Rego (com obras das décadas de 1960 a 2000) mas, também, inéditos recentes ou imagens resguardadas de uma fácil exposição pública.

 

Entre estas duas situações extremas, Amarante tem a oportunidade de ver e dar a ver a obra de Paula Rego numa extensão rara fora dos grandes centros museológicos: graças ao prestigiado Prémio que o município promove e que, este ano foi atribuído à pintora, graças à generosidade dos coleccionadores e, finalmente, graças à generosidade da própria artista que, no âmbito do Prémio atribuído e da mostra que lhe é dedicada, destinou ao Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, uma significativa pintura da sua nova fase de trabalhos, uma Rainha Santa Isabel.

 

No conjunto da sua obra, que é uma obra narrativa,  Paula Rego, nega todo o constrangimento temático e formal, subverte as linhas narrativas originais, a tipologia das personagens e inicia derivas que a conduzem a territórios de significação inteira ou parcialmente diversos dos definidos nas fontes de que se serve.

 

Cada uma das figuras joga sempre papéis de estranheza e estranhamento continuando a sustentar os temas permanentes da artista, temas onde o político e o social, o género e o sexo, o pesadelo e o medo através da crueldade e da angústia, da timidez e da vergonha, da impossibilidade e da fragilidade se expõem e nos expõem – porque as obras de Paula Rego nos devolvem o olhar que nelas, com tanta intensidade poisamos.

 

Tomemos como exemplo as 3 obras pela primeira vez apresentadas. No retrato de ensaio para a pintura oficial de Jorge Sampaio Paula Rego estuda soluções de pose e cenário: está liberto de todo o constrangimento institucional e necessidade de simbolismo oficial e, nesse sentido, mais do que um estudo é uma obra com total autonomia. Também o retrato do Presidente, se apresenta mais livre do que nas duas versões oficiais que integram o Museu da Presidência da República, em Lisboa. Essa liberdade permite-lhe multiplicar espaços por detrás da figura presidencial – ao fundo, há mesmo uma pintora e o seu cavalete (um auto-retrato idealizado?), como se, longinquamente, cite ainda as pinturas Velasquez ou Goya. E condu-la à linhagem do retrato do Presidente Teófilo Braga, de Columbano. Assim, este é um retrato meditativo e melancólico, constrói-se como labirinto inquietante e sobre ele paira uma sombra, como se a artista profeticamente adivinhasse, não o destino nem a vontade individual do Presidente, mas o destino de um país onde toda a vontade positiva se transforma em energia febril e todo o projecto reformador em luz crepuscular.

 

Finalmente, A Rainha Santa Isabel pode oferecer-nos um privilegiado campo de observação para a realidade recente da sua obra, cujo início podemos referir à serie “A Dama Pé-de-Cabra(2011). O desenho desmancha-se como se Paula Rego manifestasse a urgência de um discurso que recusa o lento trabalho do anterior período de verismo naturalista. O espaço simplifica-se, aqui ocupado por uma sucessão vertical de figuras femininas, animais e uma escada. Parece impossível discernir tratarem-se de bonecas que representam mulheres ou “mesmo” de bonecas populares (de alguma forma próximas das que os Delaunay, Eduardo Viana ou Amadeo resgataram das feiras minhotas para as suas pinturas). Essas figuras, evidentemente, integram uma narrativa própria que multiplica elementos acessórios, de carácter rural e simbólico e se liberta dos factos hagiográficos confirmados.  

 

Pela primeira vez mostrada em Amarante Paula Rego deixa aqui uma obra que muito bem a representará num dos momentos mais intrigantes do seu percurso. Num momento, também, em que as complexas relações que um “estrangeirado” sempre mantém com a Pátria (e a Pátria com ele) necessitam, da nossa parte, do estímulo de uma atenção privilegiada e reconhecida.

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